terça-feira, 11 de janeiro de 2011


A cada cinco meses aparo, corto as pontas do meu cabelo. No silêncio, barulho da tesoura, vejo pelo reflexo do espelho aquele monte com certa sensação de liberdade e perda. Mandei matar tecido morto que brilhava, ou não!

Eles tem história, tem idéia ali... Tem a tarde de sol na praia, o shampoo da promoção, a pregadeira do Recife trazida por alguém que lembrou deles, lembrou de mim. É difícil se desfazer de algo que não sai de nossa cabeça, mas sai do mesmo lugar onde nasce minha vida e nasci vontade de cortar cabelo.

Disputam o espaço com muita gente, são amantes pegajosos e por isso precisam ser podados antes que rebelde virem. Irmãos desses garantirão minha sobrevivência por um maior tempo ao receberem flores por mim um dia.

São vermelhos, pretos, brancos ou amarelos. Mas no volume da cabeça cada fio passa despercebido.

Tainara Coutinho

domingo, 7 de novembro de 2010

Chuva


Se as palavras fossem chuva,

E as chuvas palavras.

Os poemas se fariam

Do barulho, da colisão,

Da água batendo na cabeça do poeta.


Talvez fossem tempestades inverno...

Não, não!

Prefiro as chuvas de verão.

Sim, poemas seriam chuvas de verão no Equador!


Que depois do calor,

Cairiam pra refrescar

Ou pra mais esquentar

E no outro dia choveria novamente.


No verão aqui,

Os poetas ficariam coradinhos

E aguardariam com ansiedade o fim de tarde...


Talvez Paraty recebesse mais gente em Março,

E a festa mudasse de data.


Eu que já adoro uma chuva

Iria até aprender a dança,

Viraria devota de São Pedro,

E nunca moraria no Sertão!


Meu nariz seria viciado em cheiro de terra molhada...



Tainara Coutinho

domingo, 31 de outubro de 2010

Banho de Bicho



Vou limpar o meu dentro

Jogar fora de mim tudo que excede

O que borbulha, o que transborda, enfim

O que me faz ser levado via vento.


Vazio estando,

Limitarei certas bobagens

Como esse modo, esse escrever...

Que trazem inquietação

E nenhuma vantagem!


Entender e ser satisfeito,

Ser tranquilo, ser comum, ser direito


Sem letra, sem ritmo, sem intuição, só ditas palavras.

Com emoção no exato tempo.

Mas ter o cartesiano a qualquer momento!


Não ficar mais por ai quieto

E também gritando,

Arrumando as palavras

E depois as trocando.


Escolherei as partes e não todo,

Verei o certo e não torto,

Entre um ser o objetivo, e não o outro.


Só assim levarei a vida mansa e sonhada...

Tão comum e cheia de gente...


Serei igual e indiferente

Para coisas que todos vêem...

E eu em singular hoje sinto!


Darei lugar à razão

Que nunca me visitou como se deve.


Escrever o técnico, o objetivo e sem defeitos...

Ser o que esperam de mim,

Um bicho contido, racional e perfeito.

Tainara Coutinho

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Dicionário!


Quero o comum

E o particular,

Escrevo coisas comuns

Quando penso em algo singular.


Faço do significado de outros,

Semelhante ao meu.

E o leio os deles, daqueles e seu...

Dando o sentido do meu eu


Minha propriedade

Alegria, tristeza...

Universal não se faz.

Não consigo o impessoal jamais.


Quero os detalhes de todos

Não quero que limitem os meus

Quero todo de outros

Não quero entendam pedaços do meu


Comigo, tempo seu, contigo, lugar meu.

Pronome, posse, interpretação e mais...

Mal entendido,

O que deveria ser dito?

Adjetivo ou substantivo?


Pedaço, completo...

Prosa e verso.


Vou definir, fotografar.

Criar um objeto só de falar...


Brotando da minha boca com a definição

Coisa, forma, cor... Tinta!

Como uma receita ser a seguida.


Puro, concreto

Com passado, presente...

Sem qualquer contexto ausente.


Definindo assim

Preocupação não há...

Com tom,

Com o gesto, com a mão.

Falarei com palavras e pronto.


Serei mudo.

Mil imagens por cada palavra.

Livre de qualquer ambiguidade.


Haverá clareza no meu tema,

Será única a interpretação desse poema.


Um dicionário, em verso, não subjetivo.

E sem razão de ser lido.

Tainara Coutinho

terça-feira, 15 de junho de 2010

Páginas em branco.


Seja por falta de tempo ou por não imaginação literária, o fato é que hoje a escassa criação textual tem me preocupado. E embora saiba e tenha total consciência de que qualquer autor - e digo qualquer, pois quando falo de mim refiro-me ao tipo mais medíocre - possui seus momentos que variam do apogeu literário à ausência total de produtividade, ainda sim me preocupo. Contudo, não é algo que possa tirar o sono, até porque ando cansado demais para isso.

Em minha vida nos períodos que antecedem a esse, existia entre mim e esse “mundo literário” uma suposta harmônica relação que de tão poderosa se fazia, era capaz fazer-me sentir diferente, fazer-me sentir apto a criar. E se no seu planeta Terra gerar o novo não algo é significativo, no meu ao contrário é de grande importância, pode trazer a tão sonhada identidade.

Existe uma grande diferença entre o leitor-leitor e o leitor-escritor que vai além de status passa por uma maior compreensão, e eu ousaria dizer uma “compaixão textual”.

Talvez seja essa a justificativa de minha insistente preocupação, sendo devida parte pelo medo de torna-se um ex-escritor - um "cidadão comum"-, parte por não possuir mais o passaporte que me leva para o mágico “mundo literário”.

Tainara Coutinho

sábado, 12 de junho de 2010


Como, meu Deus, tu podes fazer um ser tão sentimental quanto eu?

Que se faz feliz tão rapidamente...

E se entristece subitamente.


Se outra vida de fato existir...

Por favor, mais apático me mande!

Essa vida sentimental corrida demais é.


Por isso peço trégua!

Dê-me menos sentidos...

Aflições ou felicidades,

Ou faça sentir apenas por mim.

Tainara Coutinho